A indústria 4.0 no saneamento com a superintendência TX da Sabesp

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Cristina Knörich Zuffo
Superintendente de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação da Sabesp.
Engenheira Civil pela Escola Politécnica da USP em 1992. Mestre em Hidráulica e Saneamento pela Escola Politécnica da USP em 2002. MBA pela Fundação Instituto de Administração da USP em 2014.
Atuou como superintendente acumulando as áreas de PD&I e Novos Negócios da Sabesp (2015 a 2018), como gerente do departamento de Prospecção Tecnológica e Propriedade Intelectual da Sabesp (2010 a 2015), com experiência em recursos de fomento à Inovação, propriedade intelectual, estudos de prospecção tecnológica, parcerias tecnológicas e execução de projetos de PD&I nacionais e internacionais.
Foi engenheira da Unidade de Produção de Água da Metropolitana da Sabesp(1997 a 2010), com experiência em modelagem matemática hidráulica, estudos de concepção e otimização para abastecimento público, eficiência energética em sistemas de bombeamento e planejamento do abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo.
Contatos: czuffo@sabesp.com.br

Nesta edição, trazemos a entrevista da Superintendente de Pesquisa, Desenvolvimento Tecnológico e Inovação da Sabesp (TX), Cristina Knörich Zuffo, que discorre, com muita propriedade e experiência, sobre os recursos, soluções e impactos trazidos pelos processos dessa nova diretriz.

SANEAS: Sendo o saneamento um setor de manutenção convencional nas últimas décadas, a senhora acha viável a adoção de uma produção turbinada pelos recursos de ponta propostos pela “Indústria 4.0”, como emprego da inteligência artificial, impressão 3D e outras novas possibilidades?

Cristina K. Zuffo: Com certeza! A Sabesp já se utiliza de recursos de IoT e automação em diversas instalações e até mesmo na gestão corporativa. Além disso, cada vez mais estão sendo prospectados e gradativamente incorporados sistemas da indústria 4.0.

No mercado já existem inúmeras soluções voltadas para o saneamento com o uso de inteligência artificial, sejam para aplicação em sistemas de gestão, sejam para tornar os processos técnicos da empresa eficientes e trazer um maior custo benefício.

Estamos prospectando um rol enorme de tecnologias nacionais e internacionais para alavancar os nossos processos, com graus de maturidade diferentes. Algumas tecnologias dependem de desenvolvimento ou adequação para atender plenamente ao setor de saneamento e outras são tecnologias já disponíveis no mercado. Estas tecnologias podem ter aplicação direta para o setor de saneamento ou mesmo pertencerem a temas transversais, como é o caso da gestão corporativa ou da eficiência energética. Importante destacar que a filosofia de inovação da Sabesp atualmente segue a linha da inovação aberta e também aos conceitos de economia circular dentro do contexto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis– ODS da ONU.

SANEAS: O saneamento é um setor de grande mote social, com influência direta nas esferas da saúde, moradia, economia e índices gerais de boa qualidade de vida. O que o emprego das tecnologias de ponta traria de benefício a esse conjunto de ações?

Cristina K. Zuffo: De fato, o saneamento tem um papel importantíssimo no desenvolvimento social. Se compararmos por exemplo, os índices de mortalidade infantil com a evolução de atendimento em água e esgoto no Estado de São Paulo nos últimos 30 anos, vemos que existe uma relação diretamente proporcional da redução dos índices de mortalidade, conforme vão aumentando os índices de saneamento no Estado. Além disso, sabemos que o saneamento também exerce um importante papel para reduzir as diferenças e aumentar a inclusão social.

A implantação de inovações, sejam de cunho tecnológico ou mesmo em processos administrativos, serviços dentre outros, com certeza vão ter um papel importantíssimo para minimizar de forma mais acelerada as diferenças sociais, além de reduzir a burocracia, garantir a qualidade e quantidade dos serviços oferecidos pelo setor, pelo ganho de eficiência e obtenção de resultados mais efetivos no saneamento.

SANEAS: Existem financiamentos governamentais, voltados para o alto empreendimento tecnológico no saneamento?

Cristina K. Zuffo: Sim. Atualmente existe uma gama enorme de financiamentos voltados para inovações, não só para o setor de saneamento como para qualquer setor que queira inovar.  A Sabesp já faz uso de algumas linhas de financiamento desta natureza, como por exemplo, FAPESP, FINEP e BID.

Acredito que o acesso a estes financiamentos atualmente é limitado para diversas empresas pela falta de informação, falta de estrutura corporativa voltada à PD&I e má qualidade dos projetos submetidos. No Brasil temos uma carência muito grande de projetistas especializados e abertos para inserção de inovações. Em geral, temos um “copy & paste” dos projetos passados que são replicados nos futuros e justificados pela velha retórica “fizemos isso por mais de 30 anos e sempre funcionou, porque mudar?”.

SANEAS: O estado de São Paulo conta com processos de instalações e equipamentos, como tubos, válvulas e estações de tratamento, bem antigos. Como os atuais processos tecnológicos verificam suas condições de operação? Eles tendem a ser substituídos por ações inovadoras?

Cristina K. Zuffo: A gestão de ativos é um ponto crucial para empresas de saneamento. Para entendermos o impacto das inovações no saneamento precisamos primeiramente conhecer as suas características e dinâmica de inovação. O setor de saneamento, por exemplo, é caracterizado por ser fortemente atrelado ao setor público, regulado, necessita de investimentos elevados de infraestrutura, economia de escala e trajetórias tecnológicas de longo prazo.

Para se ter uma ideia, temos instalações de 1914 que estão funcionando bem até hoje. Claro que ao longo do tempo é necessário o monitoramento e eventuais intervenções para modernização da base de ativos e desta forma manter  o pleno funcionamento de todo sistema. Um exemplo de tecnologia que atua na recuperação de ativos são os métodos não destrutíveis, como é o caso do “pipebursting”. Esta tecnologia já está bastante difundida e cada vez mais barata pelo efeito escala. Assim, em algumas regiões, o método “pipebursting” já supera a utilização dos métodos tradicionais com abertura de valas que acarretam muito mais transtornos e impactos negativos para a população.

SANEAS: Durante a Fenasan 2018, foram mostrados modelos e gráficos de transformação da Sabesp, por meio da gestão das prioridades com o emprego da inovação tecnológica. A senhora poderia enumerar, por ordem de importância, quais são as prioridades para se vislumbrar uma nova Sabesp para 2019?

Cristina K. Zuffo: A abordagem da inovação não pode se restringir à um número limitado de áreas de atuação ou iniciativas. Desta forma, a Sabesp mapeou diversos desafios baseados em demandas de toda empresa, sejam pelas áreas operacionais ou corporativas. Os desafios foram priorizados e divididos em 5 grandes áreas consideradas estratégicas pela empresa: experiência dos clientes, redução de perdas, tecnologias para o saneamento, eficiência operacional e energética e gestão corporativa. Os 27 desafios prioritários foram lançados em um chamamento público, o PITCH SABESP, cujo evento de premiação foi realizado em 11 de dezembro de 2018.

Além deste estímulo à inovação temos vários outros, tais como, o convênio da SABESP com a FAPESP, o prêmio empreendedor, financiamento para inovação com a FINEP, realização de termos de cooperação técnica com empresas e institutos de ciência e tecnologia, etc. Então veja que a inovação engloba uma gama enorme de frentes, diferentes atores e conexões para que consigamos implantar algumas delas. Além disso, a maior parte dos desafios estão inter-relacionados o que aumenta ainda mais a complexidade.

Nesta ótica, a Sabesp que esperamos para 2019 é uma empresa que continue alavancando iniciativas de inovação para melhorar a qualidade e eficiência de seus produtos, processos e serviços à população.

SANEAS: Em relação ao atendimento a uma base de mais de 28 milhões de consumidores, o que a senhora computa como mais importante no emprego dos processos tecnológicos de operação?

Cristina K. Zuffo: Realmente a base de clientes da Sabesp é maior do que a de muitos países como é o caso da Austrália, Holanda ou Arábia Saudita. Não é a toa que é a quarta maior empresa em termos de número de clientes no mundo. Portanto temos uma diversidade e complexidade enormes e é aí que as tecnologias entram para ajudar.

As tecnologias são fundamentais, à medida que facilitam a integração, operação, padronização dos processos e serviços e ajudam a minimizar possíveis erros. Além disso, ajudam na medição e controle de processos e imprimem confiabilidade aos sistemas como, por exemplo, a tecnologia “blockchain”. Todo este conjunto de soluções são fundamentais para manter a uniformidade na cobertura dos serviços e subsidiar a gestão e consequentemente as tomadas de decisão.

SANEAS: Com o compartilhamento de informações em dispositivos de comunicação, como os Smartphones, as cobranças dos consumidores se intensificaram?

Cristina K. Zuffo: Pelo contrário, a relação com os clientes se tornam mais próximas, consequentemente mais transparentes gerando um equilíbrio entre as partes. Não podemos considerar que as cobranças aumentam e sim que estamos ouvindo muito mais o cliente final, o que antigamente era um processo restrito pela ausência de canais desta natureza.

A Sabesp consegue mapear muito mais rápido as necessidades dos clientes e desta forma, dimensionar os serviços e produtos mais indicados a cada perfil ou necessidade. Um bom exemplo aconteceu na crise hídrica, onde a Sabesp disponibilizou um aplicativo para imprimir maior transparência das informações hídricas, de forma que toda população acompanhasse o nível dos mananciais. Temos ainda o “Sabesp Mobile” que ajuda os clientes a gerenciarem suas contas, emite de segunda via, fornece informações sobre falta de água, dentre outros serviços. A tendência é que gradativamente haja o aprimoramento e a implantação de outras tecnologias de natureza digital para facilitar ainda mais a relação cliente / Sabesp.

SANEAS: Que impacto a implantação de novos processos voltados à Inovação causou na maneira de se conceber e executar as demandas dentro da Companhia?

Cristina K. Zuffo: Na realidade estamos gradativamente promovendo uma mudança de cultura dentro da empresa. Isso é muito importante pois os processos  inovativos somente terão espaço se a companhia como um todo acreditar nesta premissa. O processo inovador não pode ficar circunscrito à apenas algumas pessoas, tem que permear toda a empresa. Assim já estão sendo incorporados em diversos projetos e processos ações inovadoras. Estas ações, por sua vez, servem de exemplo para que outras pessoas dentro da companhia se contaminem com o espírito  inovativo e também procurem por inovações tornando-se um ciclo virtuoso.

SANEAS: No âmbito interno da Companhia, considerando um corpo funcional com muitos anos de casa, portanto de idade, como são trabalhadas eventuais resistências de empregados em relação à modernidade das inovações propostas?

Cristina K. Zuffo: Como dito anteriormente é um processo gradual de mudança cultural. A resistência à mudança está intrínseca no ser humano e isso não depende somente da idade. As pessoas em geral, por natureza, têm aversão à mudança, não querem sair da zona de conforto. Como inovação implica em riscos, precisamos de uma grande determinação para mudar este panorama.

Tenho diversos funcionários mais antigos que são muito abertos à inovações. Claro que as novas gerações já nasceram num ambiente digital e com a mentalidade voltada para inovação, o que facilita a introdução de novas tecnologias, mas não significa que todo corpo técnico da Sabesp que tenha muitos anos de casa seja reativo às mudanças. Estamos trabalhando neste aspecto fortemente, colocando e estimulando a inovação no dia a dia da empresa.

SANEAS: É possível se ter uma noção de destaque individual e de meritocracia dos empregados da Empresa, dentro de um processo tecnológico padronizado de avaliação?

Cristina K. Zuffo: Acredito que as tecnologias são ferramentas para apoiar o ser humano em suas decisões, mas a decisão final será sempre do gestor que está diariamente junto a sua equipe e pode estabelecer avaliações subjetivas, que associadas à tecnologia e à  racionalidade terão um poder de análise muito mais refinado e completo, diminuindo sensivelmente erros no processo.

SANEAS: Em sua concepção, o medo do “novo” tem justificativas ou pode-se afirmar que atualmente a simplificação, otimização e informatização dos processos trazem soluções confiáveis e confortáveis?

Cristina K. Zuffo: Uns dos grandes problemas da sociedade em geral é que ninguém é educado para errar ou aceitar erros dos outros. Comumente pessoas são totalmente massacradas quando erram. Mas a filosofia da inovação é que o erro faz parte do aprendizado e somente cometendo erros é que conseguimos acelerar o processo inovativo. Assim acredito que a mudança cultural passa muito pelos processos educativos de base atuais.

A maioria das soluções tecnológicas são confiáveis e trazem muito conforto para os operadores e também para a organização, já que são facilmente auditáveis. Novas tecnologias tornam os processos em geral muito mais transparentes e o compartilhamento de informações que pode ser obtido com essas tecnologias, aceleram sobremaneira outras inovações. O que acontece na prática é que toda mudança necessita de um prazo para implantação e adaptação de todos. Imagine a reação de todos com a implantação do sistema ERP na Sabesp. Num primeiro momento houve uma grande reação dos operadores e também a necessidade de inúmeras adaptações no sistema. Passados mais de um ano, o ERP já faz parte da realidade Sabesp e as resistências e falhas do sistema diminuíram muito, mas continuamos a ter um processo de melhoria contínua.  Todo processo de implantação de inovações é gradativo, necessita de capacitação do corpo operacional e técnico e é suscetível a adequações para que funcionem em sua plenitude.

SANEAS: Pelo fato da Sabesp operar em 367 municípios e considerando suas singularidades regionais, é possível a implantação padronizada dos processos operacionais, técnicos, administrativos, financeiros e comerciais, em escala por todo o Estado?

Cristina K. Zuffo: Com certeza que sim! A Sabesp possui peculiaridades regionais, mas isso não impede o uso em larga escala de tecnologias. Temos bons exemplos como a implantação do ERP (SiiS) na Sabesp, o sistema NET Control e o sistema Signos de georeferenciamento. O que às vezes muda é a velocidade de implantação dos sistemas nas unidades operacionais e algumas necessidades tecnológicas locais geralmente mais ligadas aos processos operacionais, o que é natural.

SANEAS: Como a senhora avalia a iniciativa da Sabesp para atrair soluções inovadoras, por meio do Concurso Pitch Sabesp? Os projetos vencedores serão aplicados na Companhia?

Cristina K. Zuffo: Acho essas iniciativas fantásticas, porque conseguimos atingir o público externo à companhia e inovações podem vir de onde menos se espera. Propostas vindas de pessoas físicas, pequenas empresas, startups e até mesmo de setores totalmente diferentes do saneamento é de fundamental importância para o pensamento de inovação aberta que a Sabesp adotou. O objetivo deste tipo de chamada pública é sem dúvida a implantação na empresa, tanto que os ganhadores do Pitch recebem R$ 150 mil e poderão fazer testes pilotos em escala real na Sabesp para validação de suas soluções. O objetivo é que todas elas sejam internalizadas. Claro que inovação envolve risco. E nem sempre todas as propostas podem dar em resultados positivos, mas isso faz parte do processo.

SANEAS: Se a senhora tiver mais considerações pertinentes a esta entrevista que não foram perguntadas, fique à vontade para abordá-las. Agradecemos sua contribuição.

Cristina K. Zuffo: Recentemente foi dado um importante passo para a implantação de inovações no setor de saneamento. A ARSESP, agência que regula a Sabesp instituiu um Fundo para PD&I para estimular ações inovativas na Sabesp. Este modelo atualmente já é aplicado para concessionárias de energia e gás. Em todo setor de saneamento do Brasil, a Sabesp será a primeira e única empresa a se utilizar deste processo.  Os recursos destinados a este fundo, correspondem à 0,05% da receita requerida direta da empresa o que equivale a cerca de R$ 7,5 milhões. Então a partir de 2020, a Sabesp passará a investir este valor para PD&I, alavancando ainda mais a busca por novas soluções.

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