Empreender como caminho para criatividade: provocação para inércia das carreiras e o paradigma do foco

Leia o artigo de Eder Campos, gerente de Clientes & Transformação da Iguá Saneamento

Criatividade é daquelas competências modernas cada vez mais demandadas e não tão bem suportadas. Ao preencher requisitos de recrutamento para uma nova vaga, queremos pessoas criativas. Temos problemas novos, contextos complexos, ideias criativas são sempre bem vindas. Contudo, como desenvolver criatividade?

Sou fã da palestra e das provocações de Murilo Gun sobre criatividade. Recomendo fortemente. Mas uma leitura recente me despertou boas inquietações. O caminho para criatividade está no empreender.

Antes de tocar nesse ponto, vale uma provocação:

“(…) a criatividade é essencial para resolver problemas complexos, do tipo que enfrentamos com frequência no acelerado mundo contemporâneo. (…) não temos obtido sucesso treinando pessoas para serem mais criativas. Há uma explicação simples para o fracasso: tentamos treinar a criatividade como uma habilidade, quando ela é um estado de espírito”. (Livro Roubando Fogo – p.51)

Criar o estado de espírito para criatividade

Estado de espírito envolve seu estar, mais do que seu ser. Aqui entra em campo um conjunto de preocupações essenciais: os estimulantes da vida!

“Em um mundo que nunca desliga, a credibilidade profissional envolve uma mistura equilibrada da quantidade exata de estimulantes e calmantes, para o funcionário conseguir manter seu encanto.” (Livro Roubando Fogo – p.70)

Exercício físico estimula, libera endorfina. Meditação tem um papel de grande valor nos estímulos: sua conexão com o agora, com a respiração. Café estimula! Jogos, músicas, vídeos, cada qual pode desempenhar um papel no seu estado de espírito.

Encarar esse balanço pessoal é primordial para qualquer profissional bem-sucedido. Existe um grande arsenal cada vez maior à disposição, incluindo psiquiatras (o qual temos o costume de associar mais à doença do que a preservação da saúde mental!).

“Em vez de tratar a psicologia humana como um inquestionável sistema operacional de nossa vida, podemos redirecionar seu propósito para que funcione mais como uma interface de usuário, aquele painel de controle de fácil utilização que nos permite lidar com os programas mais complexos. Tratar a mente como um painel de controle e enxergar os diferentes estados de consciência como aplicativos a serem criteriosamente acionados torna possível ignorar um bocado de narrativas psicológicas e obter resultados com mais rapidez e, em geral, com menos frustrações.” (Livro Roubando Fogo – p.117)

Essas provocações precisam ser assumidas pelas empresas, pelos times de gestão de pessoas. Como as organizações ajudam seus colaboradores nessa composição. Envolve o bem-estar deles e diz muito sobre a produtividade dessas. Ainda impressiona como existe pouca ou baixa associação dos temas.

Como a arte de empreender ajuda na criatividade

Grande parte do ser criativo decorre do acaso, das combinações inusitadas. A exposição ao diferente é um ingrediente de muito valor. O desafio reside no hábito, na atitude de fazer isso. A inércia com que lidamos com nossas vidas e nossas carreiras é um grande vilão.

O empreendedor é o visionário, é o espírito de fazer acontecer, é o insano, o obstinado. Ele rompe inércia, cria demanda, resiste e persiste, pivotando, adaptando.

“A verdade é que o empreendedorismo é uma opção de carreira que demanda muita força e, a menos que você seja masoquista, não há nada especialmente romântico em fracassar repetidas vezes até encontrar a fórmula certa.” (Livro 10% Empreendedor – p.16)

O livro 10% empreendedor descortina o horizonte de como empreender é uma opção de carreira. Mas antes de defender ele destaca um quesito importantíssimo: a maior parte absoluta das tentativas dá errado. Existe muita mística observando os casos de sucesso, e deixa-se de observar uma parcela importante: o empreendedor de tempo parcial.

Muitas vezes nos vemos no dilema de deixar o atual emprego virar o máximo do stress para chutar o balde e resolver empreender.

Talvez não nos permitimos tempo livre e ocioso para dedicar a alguma paixão ou atuação alternativa. Deixamos para visitar esses temas apenas nos sonhos: chutar o balde e empreender.

Talvez na maior parte das vezes, apenas negamos. Empreender não é para mim.

Ou apenas não pensamos. Estou focado no que faço. A vida se consome de reunião em reunião.

O paradigma do Foco e do Plano B

Um dos grandes paradigmas que pessoalmente revisitei ao ler 10% empreendedor envolve o mantra do foco. A imagem do pato que não faz nada direito (voa, anda e nada, mas sem ser um destaque em nenhum desses). A forte afirmação de que seu melhor Plano B é seu Plano A.

Após alguma reflexão vejo que não é uma contradição, é uma complementação. Ao se deixar empreender, se envolver em projetos paralelos seja como conselheiro, investidor anjo, fundador ou empreendedor 110%, você não está criando um plano B, está reforçando seu plano A.

Sua carreira é seu plano A. Você não está apostando em uma carreira alternativa como válvula de escape, caso tudo der errado (essa seria a visão do seu plano Z). Você está trilhando e reforçando sua aposta. E eis que existem duas formas possíveis:

1.    Você é um executivo que quer ser melhor

2.    Você é um fundador/empreendedor e quer ser melhor.

Nos casos de executivos, empreender como alternativa envolve abrir horizontes. Trazer paixão para sua rotina. Inspiração em pequenos projetos que vão ser uma válvula de estímulo.

Ajudar outros empreendedores como conselheiro ou investidor anjo vai te dar novas perspectivas e enriquecerá sua jornada como executivo. Possibilitará surgir a tal criatividade por ter novos relacionamentos, se envolver em novos mercados, ter novos contatos. É uma jornada muito rica! Você será melhor executivo no que faz, ampliando seu repertório.

Nos casos de fundador, o caminho de ter um emprego estável que mantenha e dê renda enquanto constrói seu sonho pode ser uma alternativa (só não esqueça, seu plano A nesse caso é seu sonho). Ser empreendedor e participar de vários empreendimentos é diversificar risco, parte do seu sucesso envolve a capacidade de relacionamento, criar adjacentes e sinergias.

Empreender, portanto, é um ótimo caminho para despertar a criatividade no caso dos executivos. Por isso as empresas estimularem a participação de seus colaboradores em projetos alternativos em 10% do seu tempo por exemplo pode ser ganha-ganha. Criar envolvimento dos seus executivos com ecossistema de startups (e seus empreendedores). Fomentar participação em programa de mentores. O profissional desperta criatividade. A empresa ganha um executivo mais criativo.

Nos casos de fundadores e empreendedores, entendo que a divisão de energia pode ter função, mas cabe o olhar mais cuidadoso para não incorrer no risco do pato. Nesses casos, o cuidado entre fazer muito e dedicar para fazer bem feito existe de maneira mais forte. É ter clareza, autoconhecimento, disciplina para não se perder. Em ambos os casos, empreender é caminho, e exige ação:

“Independentemente dos cursos ou treinamentos de que você participa, a única maneira de apreender a pensar como empreendedor é agindo.” (Livro 10% empreendedor – p.35).

Texto publicado originalmente no blog Reflexão Gestão